por SILVANA GURGEL
Daí que os gordos têm que conviver socialmente com apenas duas opções: a primeira, que um monte de gente repara neles e a segunda, que um monte de gente finge não reparar neles. Sem mencionar as pessoas que falam pelas costas: “Olha, lá vai a gorda! A coitada não deve ter espelho em casa!”.
A tirania reina ácida se você estiver fora do padrão. Que atitude tomar? Devemos admitir que não temos “vergonha na cara” como quase todo mundo diz sem a menor cerimônia e emagrecer? É complicado… mas descobri uma solução temporária pra mim. Caetano Veloso durante a turnê do A Foreign Sound disse no palco, que se via um “Ser Oblíquo”. Pronto, adorei, também sou, a partir daquele dia virei oblíqua. Nem gorda nem magra, sou oblíqua, inclinada.
Agora, chato mesmo, é estar num mundo regado de academias e suas body pumps, body jams, body balances, body steps e tudo que surge de moderninho a cada mês. E ver que homens e mulheres se arremetem a essas técnicas como se elas fossem a “salvação da lavoura”. Será que ninguém repara que existe uma coisa chamada constituição física, herança genética e que mudar o biotipo é coisa de maluco? Que não é possível? Estou farta, sabia?
Vejo colegas fazendo tanto esforço para se parecerem com alguém que eles nunca chegarão a ser (a não ser talvez numa outra vida), ao invés de verdadeiramente procurarem algo que lhes traga saúde e bem-estar. É só observar essa gente num ambiente de trabalho, são neuróticos, agitados, ansiosos e fazem trezentas coisas ao mesmo tempo. É possível ter qualidade de vida assim?
Tenho uma proposta: que tal sermos mais democráticos? É, vocês aí que ditam o padrão de beleza, dêem uma folga pra gente. Porque não voltamos ao corpo ideal da Renascença? Aqueles corpos das musas das pinturas de Da Vinci, Michelangelo, Raphael (embora a escultura e a pintura que ilustram este artigo sejam de Fernando Botero, pintor colombiano radicado na Itália e nascido em 1932). Aqueles onde as roliças é que abafavam. Seria justo, ao menos um ano, uma temporada, sei lá. Alguma coisa pra dar um fôlego e todo mundo poder se sentir bem. Digo todo mundo, porque tenho certeza que iriam relaxar as mulheres de academia, as donas de casa, as peruas, as adolescentes, as publicitárias, as fashionistas, as crianças, os cachorros, as galinhas, enfim, o mundo todo.
Pensem num planeta em que todos pudessem comer sem se sentirem culpados a cada garfada extra. Onde cada um seria aceito, gordo, magro ou médio. Onde as pessoas se gostariam e amariam umas as outras por causa do sorriso, do cheiro, da pele feliz. Sim, porque comer faz a gente feliz.
Esse situação está ficando cada vez pior. Lembro-me que quando criança minha mãe, minhas tias, se preocupavam com a silhueta, mas, não era essa cobrança barra pesada da vida urbana atual.
O marco dessa loucura foram os anos oitenta, quando surgiu a glamorização da ginástica. Lembram-se dos vídeos da Jane Fonda e, posteriormente, da Cindy Crawford, ensinando a fazer malhação em casa? Pois é, não podemos negar que se exercitar trouxe consciência corporal e reforçou a auto-estima de alguns, mas para outros trouxe mais uma obsessão pra completar a já tão vasta ”cadernetinha de neuroses” que carregamos.
Li numa revista de ciência que o DNA do homo sapiens entende a gordura como um suprimento de reserva necessário ao corpo e que deve ser armazenado pra não fazer falta no futuro. No caso dos homens das cavernas, o futuro significava o que aconteceria na semana seguinte, ou seja se teriam sorte de encontrar comida ou não. De qualquer maneira, entendi porque é tão saboroso tudo que é calórico. Vai ver nosso corpo ainda acha que a gente está na idade da pedra e, pra evitar que na semana que vem não fique “na mão”, come tudo num dia. Brincadeirinha.
Não estou fazendo apologia a chegar a 200 quilos, mas adoraria ver um sonho realizado. Saber que, num dia calmo, acordarão todas as gordinhas e gordinhos do mundo, se olharão no espelho e sairão de casa com a certeza e felicidade de quem estão “na crista da onda”!

