
Rosa Esteves, artista plástica mestre em Museologia, tem uma longa trajetória profissional, que envolve fotografia, gravura, objetos escultóricos e performance. Uma bagagem de 13 exposições individuais e participação em mais de 50 coletivas no Brasil e no exterior, propiciou à artista, que é museóloga do Museu Lasar Segall, o convite para apresentar a performance Corpo Comestível (Edible Body) nos Estados Unidos.
O poeta Fabio Weintraub* explica um pouco esta performance, que o visitante verá no Hood College, em Frederick, Maryland, nos EUA, em 17 de abril de 2007:
Pedaços de um corpo feminino moldados em chocolate e marzipã. Peitos, bocas, colo, púbis…, em tamanho reduzido ou natural, servidos sobre a mesa – um trabalho que atualiza o debate sobre as difíceis relações entre arte e consumo na contemporaneidade.
Outro ponto importante a ressaltar prende-se à recuperação de uma certa imagem do feminino num momento histórico em que as distinções de gênero se esbatem, em que o erotismo deriva para o espaço da transexualidade, do charme andrógino, do corpo-prótese e do gozo artificial. Assim, seja por tematizar o envelhecimento, seja por enfatizar a ‘potência nutriz’ da mulher, Rosa Esteves coloca novamente me cena uma certa figuração do feminino que a revolução sexual, com êxito notável, tratou de impugnar.
Igualmente didática, e bastante singular, é a visão do artista visual Wilton Garcia** sobre este trabalho de Rosa Esteves:
Em ‘O Banquete’, Platão conta que os deuses banquetearam quando Afrodite nasceu. Recurso, embriagado com o néctar após o jantar, penetrou o jardim de Zeus e adormeceu ao lado de Pobreza. Ali conceberam um filho – o Amor. Eis porque o Amor ficou companheiro e servo de Afrodite, gerado em seu natalício, por natureza amante e bela. De Afrodite aos dias de hoje, as transcorporalidades acentuam a singularidade desse ‘Corpo Comestível’. O trabalho artístico de Rosa Esteves aborda poeticamente a diversidade dos corpos contemporâneos, retraduzidos pela lúdica visualidade.
Como descrição do trabalho artístico, ele está muito próximo do happening, em sua articulação de sonhos e ações coletivas. Podemos imaginá-lo um banquete, que tem como alimento o corpo – um corpo-chocolate. Há uma cena montada, iluminada, com mesas nas quais ficam dispostos os chocolates e personagens que após um período de observação, convidam o público a participar da ação final: degustar o corpo de chocolate, feito a partir da moldagem do corpo da artista. A expectativa é de que todo o chocolate seja comido, que não fique resto, não sobre nada, já que o ato de comer é parte principal da obra, o seu fim, sua realização.
Aqui a artista aponta questões sobre arte comestível e a imaterialidade na arte. Corpo comestível tem que ser consumido, e seu desejo é que ele não seja conservado como um objeto de chocolate. O objeto mais o ato de comer são unos, inseparáveis.
A primeira apresentação de Corpo Comestível aconteceu em Ribeirão Preto, em março de 2004 a convite do Serviço Social do Comércio, Sesc; a segunda e a terceira montagem ocorreram na cidade de São Paulo, na inauguração do Sesc – unidade Pinheiros, em setembro, e no Seminário Corpo & Arte, realizado no Senac Santo Amaro, em dezembro do mesmo ano.
Em breve estará no ar o site: www.artecomestivel.fot.br com mais informações sobre o projeto Corpo comestível.

REALIZAÇÃO:
The Humanities Colloquium at Hood College, under the
direction of The Sophia M. Libman/NEH Professor, Dr. Rick J. Santos.
NOTAS:
1) Artigo adaptado do press release e do texto do folheto produzido para a performance da artista.
2) * Poeta, autor de Novo Endereço (Prêmio Casa de Las Américas, 2003).
3) ** Artista visual e Doutor em Comunicação e Estética de Audiovisual ECA/USP e Pós-doutor em Multimeios pelo IA/UNICAMP.
AGRADECIMENTOS: Wanda Maria Gomes e Rosa Esteves.